Trechos de nós

Trechos de nós

A nossa história eu não vi escrita em livros, representada em cinemas, desenhada em siglas por árvores cidade afora, muros e nada mais. A nossa história eu vi em nós, naquele seu olhar típico de um encontro em aeroportos dizendo “vamos adiante?” e naquelas minhas palavras de “vamos ficar”. Vem da minha saudade de agora a vontade de pensar no futuro e esquecer o passado… Vontade por vontade, por querer todos os dias e fingir que não há tempo para pensar, pois o amor nos retarda demais. Mas hoje é domingo, e domingo a cabeça esvazia mais que a minha cama. Fiquei olhando em volta e… onde você está? Em que rua dessa cidade maldita você foi parar? Em que apartamento o seu sono ri da minha insônia? Ou será que morre de saudade como eu? Ah, seus olhos dirão, você sabe que sim, estamos cansados de saber que sim. A minha loucura também é culpa da saudade, das suas roupas espalhadas pelo quarto, do copo quebrando na cozinha, da música desconhecida vinda da sala, dos bares em que saímos falidos, mas felizes, das letras estranhas nos meus papéis que ninguém tocava. Posso falar mais um pouco de saudade ou você irá cansar? Se já não cansou de nós, meu riso irônico pode até te confessar umas boas verdades. E verdade que é verdade, diz: a nossa história está fazendo festa no meu coração, ainda que longe, ainda que a saudade seja a aniversariante, quem dá a festa sou eu. Por você, por nós, pelos olhos que se reconheceram: você não ouviu falar que a gente precisa celebrar o amor? Olha o céu, olha lá pela janela, não perde tempo… Eu roubei algumas boas nuvens para escrever o seu nome, não estranhe esse cinza, foi tudo o que nos sobrou. Eu vou chegar em casa, vou olhar para baixo, vou procurar as marcas dos seus calçados sujos, vou esperar o cheiro de comida no ar e vou me sentar. O cheiro da saudade vem sendo o meu único perfume. Vamos fugir, juntos, unidos e colados. Não “fugir para outro lugar” como diz a música, não precisamos ir sem destino, mas um para o peito do outro, o abraço, o beijo, o jeitinho próprio de salvar o amargo da vida e a falta de cores de qualquer dia como ontem, quando eu fui cruzar essa praça e os casais pareciam ter se multiplicado, mas aposto que já amanheceram distantes. Vamos lembrar de nós e brindar com uma taça de vinho barato ali da esquina… Porque amor é marginal e pobre, é saudade e vontade, é uma praça vazia e uma cama cheia. Amor sou eu acordando cedo no domingo porque um dia você me olhou. E eu retribuí. Mas isso, essa coisa de eles-se-olharam-mas-nem-tudo-foi-fácil, ninguém conta. Eles gostam é de amores perfeitos, mas a vida esqueceu de nos incluir nessa lista. Por isso não estamos escritos por aí. Um dia você me tropeça pelas esquinas e eu te te perdoo pelo atropelo. A gente se fala, nas lentes de uma câmera ou nas palavras de um texto brega misturando saudade e celebração, a gente se encontra e se fala como na primeira vez. Ah… Vê se avisa à saudade: se um dia foi, pode ser que seja novamente.

Camila Costa

(via Facebook do Papo Calcinha)

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